terça-feira, 19 de janeiro de 2010

O sapateiro...


...trechos e trechos...

Dois garotos sentados sozinhos na Estação Thessaloniki, observavam os vagões que passavam sentido leste com o carregamento costumeiro de carvão. Em suas bordas laterais entendiam-se em velocidade média os anúncios coloridos, quase rasgados, do circo Kyriakhz. O sonho de estar no meio de cores dava lugar à sensação de desvio da realidade e Clive, o mais velho dos dois garotos, quase tocava os vagões quando estes paravam para o carregamento. A estação era ladeada por um estreito com paredes de tijolo e suportes estruturais de ferro no centro. Havia apenas um relógio em caracteres romanos no lado direito e logo abaixo se encontravam os garotos num dos quinze bancos de madeira que compunham a Thessaloniki.

Um era Clive, chamado de Claw, e o outro era seu irmão mais novo Carl, chamado de Carl.

Ambos filhos de uma bruxa do norte europeu e de um arquiteto russo. Era ela, a mãe, Charlotte e o pai, Ivan. Tinham o cabelo cinza e olhos grandes e bem esbugalhados. Eram atarracados e com pouca beleza; a face de Clive era mais robusta e ossuda que a de Carl, um pouco mais serena e meiga.

Quando o vagão se foi, Carl sentou no banco novamente e dormiu. Clive permaneceu de pé olhando a fumaça que se dissipava pelo vento. Sua bermuda manchada de carvão incomodava seus joelhos e com isso ele precisava esticá-la o máximo possível. Era certeza de que esse seria o último trem, contudo não o último transporte daquela estação quase abandonada.

Já batia o sino da meia noite e Clive ainda não sentara, olhando ansioso para o oeste em busca de alguma cor. Ele tinha certeza de que hoje seria o último dia de sua vida em que dormia com seu irmão no cinza, sentimento da solidão – por mais que o ignorasse. O garoto assuou o nariz por causa do frio e tentou apertar o cachecol um pouco mais pra perto da garganta, mas não adiantava, ele precisava de um cobertor.

Carl tossia, mas continuava dormindo, como que indiferente ao ar gélido. Se esticara ao longo de todo o banco; agora fazia muxoxos de leve com a boca e rangia os dentes. Contudo, Clive sabia que não havia ninguém naquele lugar. Não havia ninguém na cidade.
Não havia ninguém onde quer que se fosse.

Achava que, desde a infância, habitava no mundo com seus pais e seu irmão Carl. Os rios eram seu maior atrativo. Os prédios vazios seus variados quartos. Andou por toda a Europa, o norte da África e o oeste asiático sem esperar amigos melhores do que seu irmão. Havia nisso tudo o seu sapato que sempre fora o mesmo desde que nascera e nunca ficara pequeno ou apertado. Se ele pudesse falar, contaria mais histórias do que todos os livros do mundo. Mas quem os escrevera?

Na noite da morte do seu pai, Ivan, soube que os prédios não foram construídos sozinho. Nem os livros, escritos pelo ar. Mas antes que o velho Ivan pudesse dizer o que havia além da solidão, teve um espasmo e morreu instantaneamente. Charlote havia morrido anos atrás de velhice e não pode ajudar mais do que o pai. O leito de cada membro era regado pela chama do silêncio. Os garotos, acostumados com o isolamento, decidiram partir e descobrir o que era a vida em que viviam. O que havia além das quatro almas de sua família. Não havia tristeza por perder os pais e nem ansiedade em querer desvendar qualquer que fosse a situação. Não sentiam medo.

Só possuíam um nome dado pelo pai, antes de sumir. Thessaloniki

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- Claw – sussurrou Carl ainda deitado -, quem dirige os trens?
Clive sabia que não poderia responder essa pergunta, portanto manteve-se calado. Nunca nenhum trem parara para eles, mas ele, de alguma forma, sabia que haveria de parar, naquela noite. Talvez por que a data da morte de Ivan era há daquele mesmo dia, há quase quinze anos atrás.

Carl voltou a dormir.

Ele não podia afirmar com certeza que não gostava daquele lugar. Vivera por toda a sua biografia chamando sua terra de sua e alimentando-se do que nascia nos solos escuros e ermos. Seu temperamento era neutro quanto a quase tudo, se tornara indiferente e sabia que isso tinha haver com o lugar em que estava. Talvez, por anseio de sensações, quisesse mesmo partir para algum lugar próximo de pessoas. Elas deveriam existir.
Por hora.

Ao longe uma luz amarela refulgiu nos olhos de Clive, cansado e resfriado, se aproximando com uma velocidade menor do que a de costume. Ao que parecia não era um trem convencional de carvão, mas a luz não permitia identificar o causador de tanta claridade. O relógio bateu meia noite e cinco, algumas corujas voaram de cima das arvores que estavam ao lado dos trilhos da estação e Carl acordou. Se deparando com a luz, levantou-se e se postou ao lado do irmão tremendo de frio e segurando um livro preto na mão esquerda. Mantinham a calma equilibrada, até que a maquina parou.

Era um trem, com certeza. Porém tinha apenas um vagão muito pequeno e coberto por uma espessura de metal fino. As cores não eram cinza, mas de um amarelo ocre que ardeu os olhos dos garotos. Não havia adesivos de circos e nem detalhes nas janelas, só uma caixa amarelada, lisa e coberta de estanho. Pela primeira vez na vida Clive sentiu esperança e decidiu olhar para o início do trem, onde deveria estar o maquinista. Mas antes que pudesse sequer fazer um movimento, Carl o chamou a atenção para a única porta, tão pequena que nem era notada. Ela se abria e um sujeito saia para a plataforma sorrindo.